Um país de especialistas

Vitor Silva - 22/06/2017 - 03:12

Um país de especialistas

Portugal é um país de especialistas. Não sei qual a percentagem de portugueses, mas certamente será grande, que têm opinião sobre tudo, independentemente do rigor da informação a que acederam e da formação que adquiriram ao longo da sua vida. Mas quando essa opinião se limita ao futebol, daí não vem qualquer mal ao mundo. Afinal todos nós, em particular os homens, somos treinadores de bancada. O problema é quando as opiniões se estendem a matérias que exigem informação e formação que não se têm.

Vem isto a propósito da tragédia que ocorreu no passado fim-de-semana, no concelho de Pedrógão Grande, que ceifou a vida a dezenas de pessoas e deixou muitas mais feridas. Televisões, rádios e jornais, têm dado voz a miríades de pessoas que emitem opiniões sobre: por que aconteceu?; como aconteceu?; podia ter sido evitado?; quem são os responsáveis?; etc. No meio desta profusão de opiniões é por vezes difícil distinguir aquelas poucas que são fundamentadas daquelas muitas que não têm qualquer base de sustentação.

Lembro o que aconteceu quando abateu a ponte de Entre-os-Rios, outra tragédia que levou a vida a quase tantas pessoas como esta última. Foi em 2001, já lá vão dezasseis anos. Também na altura os meios de comunicação social se encheram de pretensos especialistas em pontes, opinando sobre as causas do acidente e mais ainda, com a cobertura desses mesmos meios de comunicação, espalharam-se pelo país prevendo a derrocada de muitas outras pontes perfeitamente identificadas. E na altura não existiam as redes sociais na internet que amplificam a voz de qualquer pessoa. Só para que conste, não ocorreu depois disso em Portugal mais nenhuma queda abrupta de uma ponte.

Não quero eu dizer com isto que as pessoas não devam ter direito à sua opinião. Num país democrático é fundamental garantir a liberdade de expressão de todos. Mas era bom que cada um pensasse melhor antes de abrir a boca. Se calhar estou a ser utópico ao ter tal desejo, mas no meu caso prefiro informar-me, lendo e ouvindo aqueles que são verdadeiros especialistas na matéria, pelo que estudaram, pelo que publicaram, pelo seu percurso académico e profissional, e depois disso tiro as minhas conclusões.

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