Quem tem medo da democracia?

Marcos Aguiar - 27/04/2017 - 10:07

Quem tem medo da democracia?

Fico pasmado quando oiço quem se opõe às diretas nos partidos políticos acenar com os fantasmas do populismo para repelir o princípio "um Homem, um voto e a maioria decide" dos estatutos destas organizações.

Na verdade os populismos não emergem das fragilidades do processo democrático, mas, pelo contrário, do afastamento que a maioria dos cidadãos tem da vida política/cívica, principalmente por via da sua legítima desconfiança em relação aos sistemas partidários " tipo castas" e aos efeitos perniciosos que estes têm na vida de todos nós. E nem vale a pena dar exemplos, ou vale?!


É preciso assumir com toda a frontalidade que, em Portugal, os partidos são instituições não-democráticas, logo pouco atrativas para quem com eles se envolve e procura vingar através dos seus méritos. Trata-se, pois, de um paradoxo perigoso: sendo precisamente os partidos políticos o principal sustentáculo do sistema democrático, como ambicionar a uma democracia de qualidade quando não se desvalorizam os mais capazes?


Há, apesar de tudo, gente a defender processos de democratização nos regimentos dos partidos, mas atualmente ninguém lhes liga grande coisa, principalmente num tempo de ressaca da crise, em que a dita foi pretexto para tudo - até para quase suspender o Estado de Direito.


Inclusive o PS, partido progressista, que até tem um secretário-geral eleito por primárias/diretas e prometia alargar o sistema a outros processos eleitorais, entretanto, meteu a "coisa" na gaveta - maldita crise que serviu de desculpa para tudo…

O flagrante alheamento dos cidadãos da vida política/cívica é dramático e os partidos políticos deveriam ser os primeiros a assumi-lo e a reagir. E os números não me desmentem: a título de exemplo, nas últimas eleições para o Parlamento Europeu registou-se em Portugal a maior taxa de abstenção de sempre – mais de 66% dos eleitores não exerceram o seu direito ao voto.


Num momento em que os partidos portugueses deveriam estar a assumir a sua maturidade democrática (o PS, por exemplo, comemorou, há dias, 44 anos de existência), verifica-se que continuam a ser instituições regidas de forma arcaica e pouco transparente.

Precisamos urgentemente de organizações políticas mais atrativas e mobilizadoras. Partidos que sejam espaços de liberdade, de debate, de autonomia, de criatividade, de diversidade e de descentralização.

Por tudo isto, é urgente perguntar: quem tem medo da democracia?

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