Mário Soares e os mosquitos da democracia

Marcos Aguiar - 10/01/2017 - 09:33

Mário Soares e os mosquitos da democracia

Entendo a democracia como uma construção colectiva, onde a opinião de todos e todas pode e deve contar. Por isso me têm chocado tanto, nos últimos dias, as boçalidades que leio e oiço, particularmente nas redes sociais, a propósito da morte de Mário Soares, situação que reproduz bem aquilo que Pacheco Pereira recentemente classificou de “ascensão da nova ignorância”.

Segundo Pacheco Pereira, atualmente: “o grande reservatório do populismo político e social nas sociedades ocidentais são as redes sociais, que, não sendo a causa do populismo, são um seu grande factor de crescimento e consolidação. São como as poças de água estagnada para os mosquitos. Funcionam como o lubrificante do populismo em momentos cruciais, dando-lhe uma rapidez de resposta aos eventos e condicionando o mundo exterior”.

A democracia não é nem nunca será o sistema perfeito que os “mosquitos” exigem, mas pouco fazem por alcançar. A própria essência da democracia, que a coloca à mercê das imperfeições do Homem, da sociedade e dos seus equilíbrios precários, assim o determina.

Como afirmou Winston Churchill: "A democracia é o pior dos regimes, excetuando todos os outros". E poucas pessoas incorporam melhor que Mário Soares este espírito utópico e, inevitavelmente, imperfeito da democracia. Afinal, ele foi apenas um Homem, com virtudes e defeitos, como todos nós. Foi controverso e, às vezes, quase consensual. Falhou e acertou, mas, no final, ninguém pode dizer que não tentou. Nunca foi um “mosquito”, isso com certeza!

Tenhamos, pois, a capacidade de reconhecer e objetivar o legado de Mário Soares, valorizando, sem mitificar, o muito que ele fez de bom, mas também sem branquear o que ele fez de menos positivo.

Mais do que vilões, onde descarregar as nossas frustrações e medos, ou mitos, tipo "pai da democracia", precisamos (muito) de referências objetivas para o futuro dessa mesma democracia - que nunca foi, nem será, uma construção individual.

Mário Soares, descanse em paz.

Marcos Aguiar

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