A realidade não vai de férias

Nelson Brito - 14/07/2016 - 03:45

A realidade não vai de férias

Num momento em que muitos portugueses já se encontram a gozar as merecidas férias, proponho-me olhar a nossa realidade presente a partir de três perspetivas distintas – local, nacional e internacional.

A nível local, destacaria os programas de férias Viva Aljustrel e Viva Aljustrel +, direcionados às crianças e jovens do concelho de Aljustrel.

O Viva Aljustrel resulta de um diagnóstico que teve duas conclusões: por um lado, que os país/trabalhadores têm muita dificuldade em gerir a férias escolares dos seus filhos, por outro, que os serviços municipais teriam capacidade para dinamizar um programa que respondesse às necessidades das famílias nas interrupções letivas. E foi assim que surgiu o Programa Viva Aljustrel, que nos orgulha porque responde às famílias, ocupando as crianças de uma forma útil e educativa, sem sobrecarregar o município, uma vez que tira proveito de recursos humanos (técnicos de desporto, cultura, património, educação…) e físicos (bibliotecas, piscinas, museus...) já existentes na autarquia.

Por sua vez, o “Viva Aljustrel +”, procura ocupar os tempos livres de jovens, valorizando-os formativa e profissionalmente, através do contacto direto e prático com o mundo do trabalho. O programa decorre durante as férias letivas e destina-se a jovens entre os 18 e os 30 anos, tendo estes direito a uma bolsa semanal destinada a despesas pessoais. A participação dos jovens no programa tem a duração de quatro horas diárias e é desenvolvida em vários serviços municipais, tais como cultura, património, desporto, apoio à comunidade, infância e juventude, entre outros.

A nível nacional, talvez aproveitando algum alheamento das pessoas no período de férias, adivinha-se mais uma tranche de milhões para a banca, à pala dos cortes nas despesas sociais do Estado, ao mesmo tempo que veio o Governo anunciar, como grande medida social, a dispensa dos desempregados se apresentarem quinzenalmente nos serviços de emprego. Todo o espalhafato com esta medida, ainda que positiva, contrasta com a falta de respostas dos programas de emprego e de inserção profissional, que estão paralisados, o mesmo acontecendo com a aprovação de estágios profissionais, deixando milhares de pessoas desempregadas em casa, quando poderiam estar a dar o seu contributo à sociedade, por exemplo, nos municípios, em entidades de cariz social e no associativismo. Isto é inaceitável! Este Governo não pode ficar refém do epíteto de “gerigonça” e deixar-se aprisionar por ideias feitas, que só produzem resultados a médio e longo prazo. O desemprego é a grande chaga do momento no nosso país e deve ser combatido imediatamente, ainda que, paralelamente, sejam desenvolvidas medidas de longo alcance, que produzam efeitos estruturais no futuro. É preciso “fazer fazendo”! 

A nível internacional, destacaria a posição afirmativa do Governo Português relativamente às instâncias comunitárias, no que diz respeito às eventuais penalizações resultantes do putativo incumprimento de Portugal nas metas do défice de 2015. Na verdade, o que os neoliberais europeus querem punir não é o incumprimento do défice de 2015, ano em que as regras aplicadas foram impostas precisamente por quem agora nos quer castigar. Quem está verdadeiramente a ser castigado é o povo português, que ousou contrariar com o seu voto democrático uma linha ideológica de austeridade não sufragada, que em apenas 4 anos e meio quase destruiu o nosso país e que está a ser agora revertida por um Governo (ainda que “ageringonçado”) que começa a apresentar indicadores interessantes de recuperação socioeconómica.

Esperemos, pois, que as nossas férias não sejam ensombradas por más notícias vindas do centro da Europa, como, por exemplo, eventuais cortes nos fundos comunitários, nomeadamente aqueles que são colocados ao serviço dos municípios e das populações, deixando a preocupação de ser “muito para uns e poucos para outros”, passando a ser “nada para ninguém”.

Bem hajam. 

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