Fé e futebol

Vitor Silva - 14/07/2016 - 03:33

Fé e futebol

Para a generalidade dos portugueses a vitória da selecção nacional de futebol no campeonato da Europa, encheu-os de enorme alegria e aumentou o seu grau da autoestima, se não individual, pelo menos colectiva.

Entre as figuras públicas que desde o início apoiaram incansavelmente a selecção destacou-se o nosso Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. No final da cerimónia em que a comitiva da selecção nacional foi recebida e agraciada na passada segunda-feira no Palácio de Belém, Marcelo confessou aos jornalistas: "Rezámos muito terços. Ele, Fernando Santos, e eu. Muitos. Ainda vou a Fátima por conta disso”.

Já sabemos que tanto o nosso treinador como o nosso presidente são homens de fé, mas no caso do presidente acho exagerado que ele o afirme com tanta frequência, atendendo a que a República Portuguesa é laica, isto é, não professa nem está sujeita a qualquer religião.

Claro que o presidente tem todo o direito a ter as suas convicções, mas ao considerar que os terços que rezou tiveram influência na vitória portuguesa, de tal modo que tenciona ir agradecer a Nossa Senhora de Fátima, permite que algumas questões se levantem.

A primeira é saber por que razão Deus teria atendido mais às preces dos portugueses, entre os quais o presidente, do que às dos franceses, que também lhe devem ter rezado e muito.

A segunda questão tem a ver com o papel de Nossa Senhora, sabendo que esta não é capaz de milagres, mas apenas a de interceder junto de Deus, em linguagem moderna diríamos fazer lobbying. Sabendo que nós temos a Nossa Senhora de Fátima e os franceses a Nossa Senhora de Lourdes, concluiremos que a nossa Nossa Senhora é mais eficaz a influenciar Deus.

E aqui poderá estar também a explicação para o facto de há doze anos termos perdido em casa a final do Campeonato da Europa de Futebol para a Grécia. Pois não é que tendo nós a melhor Nossa Senhora de todas, a de Fátima, o nosso treinador da altura, Luís Filipe Scolari, nos foi colocar debaixo da protecção da Nossa Senhora de Caravaggio, uma Nossa Senhora de que nunca tínhamos ouvido falar e que pertence certamente à segunda divisão das Nossas Senhoras!

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