A prosa do medo (pouco original)

Marcos Aguiar - 18/08/2015 - 06:20

A prosa do medo (pouco original)

O medo anda por aí. Tornou-se uma banalidade e parece estar em todo o lado - na boca dos políticos; nos telejornais; em Portugal e na Europa; nas aldeias e nas cidades; nas esplanadas dos cafés; no presente e no futuro; entre nós e os nossos filhos; impregnado no ar; escrito nos livros e nos grafitis; entrando por cima e por baixo das portas; escondido nas fendas mais recônditas das nossas almas. O medo, de tão pouco original, até mete medo!

A perceção do medo é intimamente influenciada pelo clima emocional que vivemos e é esse contexto que, em larga medida, define também a forma como nos relacionamos com as outras pessoas e com o mundo em geral. Atualmente estamos num tal grau de alheamento da realidade que temos medo de ter medo - que é, na verdade, o princípio para não lhe reagir.

Mas que coisa é esta? Será o medo que quer ter tudo, tão bem descrito por Alexandre O'Neill? Será o medo de sonhar, personificado no velho do Restelo, de Camões ou o medo, representado no muro, que enclausura a aldeia de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira?

É tudo isto - o medo absurdo! Quando toma conta de nós, somos capazes de tudo, até de atropelar conquistas sociais que demoraram séculos a alcançar, aceitando limitações de liberdades e de garantias individuais e restrições ao Estado de Direito – em nome de uma (in)segurança que alguém nos impinge.

E é nesse preciso momento, em que aceitamos ser “mais um”, que o medo nos leva ao limite mais baixo da condição humana e faz de nós umas “bestas”. Na molhada, tornamo-nos incapazes de sentir o que o outro sente, o que resulta, inevitavelmente, no desprezo absoluto pelo nosso semelhante - porque é preto, porque é judeu, porque é homossexual, porque é pobre, porque é de outro partido, porque sim...

Não se trata de falta de coragem, porque não é menos corajoso quem sente medo. A coragem não é a ausência do medo (precisamos dele para identificar os perigos reais da vida). Trata-se, sim, de reagir ao medo absurdo.

Precisamos, nas palavras de Bertrand Russell, de “criar motivos racionais de esperança, razões positivas de viver. Precisamos mais de sentimentos afirmativos do que de negativos. Se os afirmativos tomarem toda a amplitude que justifique um exame estritamente objetivo da nossa situação, os negativos desagregar-se-ão, perdendo a sua razão de ser. Mas se insistirmos em demasia nos negativos, nunca sairemos do desespero”.

Diz o povo: “quem tem cú tem medo”. E tem tanta razão! Afinal de contas, o medo não tem nada de original e corajoso não é o temerário, mas sim aquele que tenta ultrapassar os seus medos.

Um abraço do tamanho do Alentejo para o auditório da Rádio Pax.

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