EUROPA? MENOS QUE ISTO, NÃO NOS CHEGA…

Marcos Aguiar - 30/06/2015 - 09:24

EUROPA? MENOS QUE ISTO, NÃO NOS CHEGA…

Quando o ministro das Finanças grego pediu um parecer aos serviços de Bruxelas sobre a legitimidade de se convocar uma reunião do Eurogrupo (realizada a 27 de junho de 2015) sem convidar um dos seus Estados membros, a resposta foi que “o Eurogrupo é um grupo informal que não está vinculado a Tratados ou a regras escritas”.

Esta resposta de Bruxelas encerra em si dois enormes perigos: primeiro, que os Estados membros da União Europeia deixaram de respeitar um dos princípios básico da convivência entre as pessoas e organizações, visto que é eticamente reprovável falar sobre os outros (quanto mais decidir o seu futuro) sem que estes estejam presentes; segundo, que existem “sítios escuros” dentro das União Europeia que estão acima da lei, onde se pode decidir o destino de povos inteiros à revelia das instituições democraticamente eleitas.

A concretizarem-se as intenções dos alemães humilharem os gregos, com a cobarde conivência do governo de Portugal e outros lacaios, estamos perante um momento histórico de consequências imprevisíveis.

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, já avisou: “Não subestimem o que pode fazer um povo quando se sente humilhado”. E melhor que ninguém os alemães deveria perceber a verdade contida nestas palavras…

A maioria dos historiadores concorda que foi precisamente a humilhação infligida pelos aliados aos alemães no final da 1ª Guerra Mundial, plasmada no Tratado de Versalhes, que levou ao surgimento do Partido Nazi e, consequentemente (apenas 20 anos depois de assinado o tratado) à detonação da 2ª Guerra Mundial.

Mas os atuais líderes da Europa, em particular os alemães, têm memória curta e seletiva. Fingem não perceber que uma coisa é obrigar os gregos a pagar aquilo que devem (com o qual julgo que todos concordamos); outra coisa é humilhar um povo inteiro, aplicando-lhe torturas disfarçadas de reformas que jamais terão resultados positivos a nível económico ou social (com o qual ninguém na Europa deveria concordar).

A resposta de Tsipras a tamanha prepotência foi exemplar: recordou os princípios fundadores da União Europeia, da qual a Grécia é um Estado membro de pleno direito; invocou a riquíssima história grega, que vive hoje no seu povo; lembrou que a democracia nasceu na Grécia e que esta “continuará a ser uma parte integrante da Europa e a Europa é uma parte integrante da Grécia”; reiterou que “sem democracia, a Europa será uma Europa sem identidade e sem rumo”; finalmente, convocou um referendo e, assim, chamou os gregos a pronunciarem-se sobre os ultimatos de que têm sido alvo e sobre o seu futuro.

É a democracia no seu melhor, em contraste com um Eurogrupo que “não está vinculado a Tratados ou a regras escritas”.

Esta é a democracia que assusta Merkel e os “nossos” Passos Coelho e Paulo Portas. A democracia que atormenta os burocratas, os tecnocratas e todos os que tiram proveito duma Europa velha, decrépita, amoral, onde, fatalmente, a política perde todos os dias espaço para os interesses dos mercados financeiros. 

Mas esta é, também, a democracia que nunca assustou os fundadores da União Europeia e homens como Francisco Sá Caneiro, que em 1974 disse: “A democracia aprende-se pelo exercício e constrói-se por meios democráticos. O exercício da democracia significa, aqui e agora: audiência ao Povo, iniciativa popular, participação institucionalizada de todos na criação das condições estruturais da sua implantação”.

As palavras de Sá Carneiro e as ações de Tsipras, indicam-nos o caminho. Neles, e em tantos homens e mulheres de vários tempos e espectros políticos, reside a esperança de uma Europa fiel aos valores do respeito pela dignidade humana, liberdade, democracia, igualdade, do Estado de direito e do respeito pelos direitos do Homem.

Europa? Menos que isto, não nos chega…

Um abraço do tamanho do Alentejo para todo o auditório da Rádio Pax

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