POBRE MUNDO, O DOS "MEGA-RICOS"!

Marcos Aguiar - 27/01/2015 - 04:47

POBRE MUNDO, O DOS

Ponto prévio: Nada me move contra os chamados “ricos” - absolutamente nada! Por isso mesmo faço minhas as palavras de Stendhal, reiterando que «Não é de forma alguma um pequeno número de fortunas colossais que faz a riqueza de um país, mas a multiplicidade de fortunas medíocres».

A fortuna do ser humano mais rico do planeta, Bill Gates, fundador da Microsoft, ascendeu, em 2014, a mais de 75 mil milhões de dólares. Se Gates decidisse esbanjar 1 milhão de dólares por dia, levaria mais de 200 anos a gastar toda a sua riqueza. Na verdade, ele jamais ficaria falido, visto que bastariam os juros sobre tamanha fortuna para a alimentar perpetuamente. É uma brutalidade! É uma enormidade! É uma loucura!

A dimensão desta “mega-riqueza” é tão esmagadora que, para a assimilarmos minimamente, somos obrigados a colocá-la em perspetiva. Por exemplo, se considerarmos que o PIB – Produto Interno Bruto anual de Moçambique equivale a 15 mil milhões de dólares, concluímos que a fortuna acumulada por Bill Gates é 5 vez maior do que a soma (em dólares) de todos os bens e serviços finais produzidos por mais de 20 milhões de moçambicanos. Isto faz algum sentido?

Mais preocupante ainda é perceber que o aumento das “mega-riquezas” é um fenómeno global. Ficou recentemente demostrado, através de um relatório da Oxfam (entidade que trabalha em mais de 90 países para encontrar soluções duradouras para a pobreza), que a riqueza conjunta dos 1% mais ricos da população mundial vai superar a dos restantes 99% já em 2016.

Realça o mesmo relatório que, nos últimos anos, o número de bilionários (pessoas que possuem mais de 1000 milhões de dólares) em todo o mundo mais do que duplicou: em março de 2009 existiam 793 bilionários no planeta; em 2014 o seu número aumentou para 1654, dos quais 3 são portugueses: Américo Amorim, com uma fortuna estimada de 4400 milhões de dólares; Alexandre Soares dos Santos, 2500 milhões de dólares e Belmiro de Azevedo, 1000 milhões de dólares.

No preciso momento em que este texto é escrito, os líderes mundiais estão reunidos em Davos, na Suíça, no Fórum Económico Mundial, mas sairão de lá como entraram – alheios à realidade! Mesmo perante dados tão objetivos como os que se relatam neste texto, a maioria destes líderes acredita (ou finge acreditar) que a desigualdade extrema é um mal necessário ao progresso humano. Será verdade?

Não, não é verdade! A desigualdade global resulta de opções muito claras das lideranças, assentes, sobretudo, numa doutrina socioeconómica refém de dois dogmas: a fé desmesurada na capacidade de autorregulação dos mercados e o servilismo às elites económicas (que respondem apenas a si mesmas), em prejuízo do poder político democraticamente eleito (que depende do escrutínio das pessoas).

A este propósito, KofiAnnan, ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas, afirmou: «A imensa distância entre ricos e pobres está num ponto crucial. Ela tanto pode aprofundar-se ainda mais, colocando em risco os esforços para reduzir a pobreza ou podemos fazer mudanças concretas agora para revertê-la. Este valoroso relatório da Oxfam é um levantamento dos problemas causados pela extrema desigualdade e das opções políticas que os governos podem adotar para construir um mundo mais justo, com igualdade de oportunidades para todos nós. Este relatório é uma chamada à ação para um bem comum. Precisamos de atender a esta chamada».

É trágico que as palavras de KofiAnnan pouco eco tenham nos atuais líderes mundiais. Resultado: (sobre)vivem neste nosso mundo 1500 milhões de pessoas sem acesso a condições básicas de alimentação, vestuário, alojamento e cuidados de saúde, ou seja, 1 em cada 5 pessoas (sobre)vive em pobreza; pelo menos 800 milhões de pessoas (sobre)vivem subalimentadas, ou seja, 1 em cada 9 pessoas passa fome; 1000 milhões não dispõem de instalações sanitárias em suas casas, ou seja, 1 em cada 7 pessoas não tem acesso, por exemplo, a uma banal sanita; mais de 800 milhões não detêm níveis básicos de leitura e escrita, ou seja, 1 em cada 9 pessoas não sabe ler nem escrever…

Quanto tempo mais vamos aceitar um sistema que se canibaliza a si mesmo, permitindo o acumular de “mega-riquezas” que contribuem para crescimento das desigualdades extremas a nível global? 1% da população não tem o direito de colocar em causa o bem-estar, em muitos casos a sobrevivência, dos outros 99%. É uma brutalidade! É uma enormidade! É uma loucura! É, sobretudo, uma desumanidade inqualificável!

Pobre mundo, o dos “mega-ricos”!

Marcos Aguiar

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